quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Depois do Paraíso - Episódio II

Isa Miranda apresenta:









Dança, paixão e sangue.
 

 

    “Atravessar o deserto durante o dia fora, em poucas palavras, uma péssima ideia. Com isso fui obrigada a me refugiar em uma gruta nas paredes rochosas e arenosas até que anoitecesse. Percebi que não tinha outra alternativa, as noites serão a minha morada, enquanto o homem dorme eu andarei entre eles.” – Pensou.
     Quando a noite invernal chegou, Lilith levantou, preparou sua partida, montou em seu camelo e voltou à viagem até a uma cidade do Egito, por nome Uaset, cidade dividida pelo rio Nilo entre Cidade dos Vivos e Cidade dos Mortos. Observava bem o lugar e seu interesse foi até a parte mais movimentada da cidade, porém algo lhe atraía para a cidade dos mortos. Ficaria ali por um tempo até partir novamente para  suas aventuras no deserto.
    Andou um tempo, havia quase nenhum homem na rua e os que transitavam olhavam-na com certo ar de curiosidade. Instintivamente, como que algo lhe dissesse para evitar aqueles olhares, resolveu se embrenhar mais na noite pelas vielas e corredores. Em um dos mais estreitos, desmontou de seu camelo e o prendeu em uma estalagem.
    O ar daquele lugar era tentadoramente conhecido, havia luxuria e desejo vindo daqueles sorrisos e vozes sussurrantes. Entrou no local e imediatamente olhares pousaram sobre ela, pelas vestes, poucos se importaram. Aparentemente mais um jovem querendo descobrir os prazeres da noite, já que era um rosto belo e sem barba, um molecote. Uma mulher envolta em véu se aproximou.
            - Posso ajudá-lo? - Ficou olhando-a de cima a baixo. - Como se chama meu jovem?
            Lilith caminhou olhando o lugar e suas narinas dilataram sentindo aquele aroma maravilhoso. Era o desejo e o sangue se misturando ao ar a sua volta. Olhou de lado para a mulher estranhando ela a tratar como um homem. Olhou para as suas vestes e seus lábios se abriram suavemente e o som de sua voz soou envolvente e encantadora vindo um nome a sua mente.


     - Khalida...
- Khalida?! - a mulher surpreendida se encantou com aquela voz suave e olhou em volta. - Perdão, achei que fosse um homem, mas onde está seu véu? Por que usa as vestes de um homem? Não me diga que foi atacada no deserto?
Lilith balançou suavemente a cabeça e confirmou que fora atacada e estava ali para se refugiar. Seus instintos lhe diziam para concordar com aquela história, provavelmente era uma precaução.
- Deseja ficar conosco essa noite, Khalida?
Um convite, uma permissão e aceitaria mesmo que não fosse convidada.
- Sim.
Andou entre aqueles homens, imponente e altiva, porém sem perder sua sensualidade. Seu quadril era um chamariz para eles, ao passar tinha um suave rebolar e suas vestes balançavam junto ao andar. As vestes pesadas poderiam esconder seus atributos físicos, mas não esconderiam sua sensualidade e seus longos cabelos ruivos que ela soltou ao chegar no centro do lugar.
Aquele ato provocou olhares desejosos e voluptuosos em cada um dos homens e mulheres do local.
      - Quem é a nova mulher? - Um homem moreno e alto se aproximou delas e olhava Lilith devorando-a por inteiro com o olhar.
- Khalida – olhou-a e depois voltou a ele – Só ainda não sei se é uma apreciadora do que servimos nessa estalagem.
Lilith olhou-o e como quem correspondesse aquele olhar desejoso, virou e dirigiu-se a ele na mesma  provocativa insinuação.
- O que seria servido nesse local, Senhor... ?
O homem abriu um largo e pervertido sorriso a ela, pousou a mão sobre o ombro e a fez se aproximar mais dele, sussurrando em seu ouvido.
- Vamos ao meu quarto que lhe mostrarei.
O olhar dele era de pura luxuria e ela o correspondia na mesma intensidade, inclinou a face para a mulher e indicou que o seguiria.
- Mostre-me.
O homem a puxou. Envolveu-a pela cintura e a levou para seu quarto deixando na mesa ao passar várias moedas. Assim, a levou pelas escadas de madeira até o andar superior e lá, já chegando ao quarto, passaram por um servo do lugar que a olhou notando nitidamente seus olhos vermelhos. Piscou os olhos várias vezes, talvez se confundira, mas preferiu não pensar muito e continuou seus afazeres.
 





         Com volúpia e luxúria o levou à cama, o homem se despiu urgente em ter aquela mulher, e ali, nu diante dela, deitou na cama esperando-a. Lilith tirou aquelas vestes revelando o corpo escultural fazendo o homem gemer com a cena e ansioso levantou estendendo a mão para puxá-la para si.

Ele estava tão envolto naquele desejo que chegava a ser animalesco, urrou quando ela deitou sobre ele e agarrou-a forte pelos cabelos beijando seus lábios com ferocidade. Lilith o afastou e tocou seu peito elevando seu corpo e montando sobre ele, estava totalmente em transe naquele ato, se encaixou e o homem gemeu alto com o contato dela.
A sede ardia a sua vísceras, queria beber daquele homem e as presas cresceram. O olhar escarlate pousou sobre o homem que naquele momento tomara consciência do que estava prestes a lhe acontecer e, antes que gritasse, a mão dela cobriu-lhe os lábios abafando o som. Somente gemidos foram ouvidos diante das presas que devoravam-lhe o sangue na mordida voraz em sua jugular. Sugou-lhe até a última gota e ali sem vida, aquele ser tinha o olhar de pavor para ela.
            - Não gosto desse olhar. – Ela levantou e saiu de cima dele, andou nua pelo quarto limpando os lábios e virou para a janela. Abriu-a e debruçou-se sobre o batente olhando o luar, o ar gélido da noite tocava-lhe os cabelos. Pensativa sobre sua atual condição, voltou para suas vestes pegando de dentro delas aquela espada que havia amarrado na cintura. - Infelizmente o fiz perder a cabeça. - Sorriu e degolou o homem. Pegou a cabeça e enrolou nas roupas, precisava se livrar do restos mortais de sua caça, porém ainda não sabia o que faria com os demais, se descobrissem o que ela fizera. Matar todos?!
Abriu um pouco a porta e olhou pela fresta, não havia ninguém naquele corredor, saiu já vestida e caminhou para o lado oposto rapidamente com o corpo no ombro enrolado em um lençol.
Ao abrir outra porta se deparou com o lado de fora e com uma estribaria, passou por lá rapidamente quase como o vento. Mesmo quem a visse não entenderia o que estava a passar, era veloz demais para os olhos acompanharem.
Longe dali no meio do nada, perto da margem do Nilo, amarrou as pernas do cadáver com uma corda e pedras em um saco de pano e jogou o corpo nas águas profundas. Em seguida fez o mesmo com a cabeça.
Voltou à estalagem na mesma velocidade que saíra. Como uma brisa suave, entrou de novo naquele quarto e deitou na cama.
- Ficarei nessa cidade, é um bom local para iniciar aquilo que desejo, ser expulsa e...
Falava consigo mesma. Quando suaves batidas na porta lhe tiraram dos pensamentos.
- Peço permissão para entrar - A voz feminina do outro lado recebeu a confirmação dela. Ao entrar olhou em todo lugar e como quem perguntasse sobre o homem que entrou consigo, recebeu de volta de Lilith a resposta que ele se fora depois de se divertirem.
O sorriso da mulher fora imediato e ela tinha um ar de satisfação, provavelmente por ter tido uma meretriz tão atraente que o homem havia pago muito bem por aquela noite.
- Khalida, caso não tenha para onde ir, gostaria de ficar conosco? Aqui temos esse tipo de divertimento e ao meu entender, gostou do que viu e, claro, usufruiu.
Lilith olhou-a de cima a baixo e suspirou satisfeita pelo convite, iria ficar e aquele lugar seria seu esconderijo.
- Ficarei, porém tenho minhas restrições. Somente saio do quarto à noite e durante o dia não quero ser incomodada de forma alguma. - A voz era suave apesar de ter um tom de ordem ou comando.
  A mulher curvou o corpo quase como quem se curvava em oração ou em reverência a ela, concordou com as condições e lhe informou que iria avisar aos servos da estalagem que não a incomodassem. Lilith percebeu que tinha controle sobre o que dizia. Homens e mulheres acatariam de imediato suas ordens, sem questionar.
O dia seguinte passou, e logo que a noite caiu Lilith saiu do seu quarto e desceu as escadas, dessa vez tinha vestes mais femininas dadas pela dona do local. Abnar sorriu e olhou-a mostrando o salão que estava mais cheio que o normal.
- Khalida, hoje teremos música, sabe dançar a dança do ventre?
Lilith olhou-a por um momento e virou para o local analisando uma jovem que dançava com uma veste que lhe agradava muito, era sensual e o modo como mexia o corpo e quadril lhe atraia, ficou um tempo olhando-a.
Depois desse tempo virou para Abnar e disse que adoraria dançar, rapidamente lhe foi providenciado roupas para a dança. Não tardou muito Lilith desceu as escadas, vestida entre véus em tons de vermelho que atraiam ainda mais atenção com seus longos cabelos no mesmo tom.
            Ali no centro do salão, a serpente dançou iniciando suavemente seu corpo ao ritmo daquela música, dançou com o quadril lançando para o lado e para o outro aquele jogo de véus e cinto de brilhos que ofuscavam os olhos sedentos de desejo dos homens naquele lugar.
Ela era estonteante e deixava aquela estalagem envolta em uma luxuriosa mágica envolvente. Seria um atrativo para as vítimas da serpente sedenta que necessitava do que tinha no corpo dos homens. Assim, noite após noite aquele lugar se tornava um ponto de atração noturna na cidade, todos queriam ver a dama da noite dançar e muitos queriam uma noite em seus braços saciando desejos carnais.
“Noite fria...”
Seus pensamentos se perdiam ao luar, ela admirava aquele final de noite e no horizonte os primeiros raios da manhã tocavam a cidade suavemente como um manto cobrindo o lugar.
            - Admirando o amanhecer? - uma voz masculina veio do batente da janela ao lado, era o servo da estalagem que estendia lençóis do quarto ao lado.
            Ela olhou-o por um tempo e se afastou com um suave e convidativo sorriso, insinuando que o servo viesse até ela, mais um pouco daquele néctar não faria nenhum mal, pensou enquanto a porta se abriu e o servo apareceu.
- Necessita de algo Khalida? - Ele parecia não estar tão abalado com ela, mesmo que em momentos seu corpo estremecesse com sua proximidade. Ali, de pé na porta aberta, ele não entrou.
- Quem sabe? Talvez você queira algo que eu possa lhe servir.
Ele baixou a cabeça olhando para o chão e seu corpo bambeou um pouco quase entrando no quarto. Deu um sorriso nervoso e balançou a cabeça negando.
- Sou só um humilde servo, nada tenho que possa lhe agradar e muito menos ter o privilégio de ser servido por ti, Khalida.
Ela estranhou o fato dele não se mexer e seguir até ela, e ficou ainda mais intrigada com o fato dele não seguir sua voz ou despertar desejo pela mulher.
- Está certo disso, podemos descobrir algo que lhe seja útil. - Deitou na cama e sensualmente expôs as pernas e deixou ombros a mostra. - Venha … - estendeu a mão lhe convidando.
            O jovem servo engoliu seco e olhou para os lados fora do quarto e depois para ela novamente, quando ia entrar ouviu uma voz o chamando, era a Abnar que solicitava seus serviços.
            Ele sorriu a Khalida e se desculpou, virou-se e se afastando rapidamente pelo corredor suava frio, nervoso.
Lilith olhou-o se afastar, intrigada. Ele resistira aos seus encantos de uma forma fora do comum e a serpente rolou na cama, levantando e fechando a porta logo em seguida.
Deitada na cama outra vez. Adormeceu com a imagem daquele servo em sua mente e a promessa de que na próxima noite ele seria dela
 
 
Continua...
 
 
 
           


           
Conhecendo a autora do episódio.
 



 
 
 
 


Blog - Como surgiu seu interesse pela escrita?

 

Isa - Escrevo desde meus 15 anos, interesse veio da leitura, lia muito livros, imaginava outro final para as histórias e que faria diferente durante o decorrer da mesma. Então, imaginação é fértil e a escrita passou ser o ponto onde deixava fluir o que imaginava.

 



Blog - Quem são os escritores que te inspiram?

 

Isa - Internacionais – Anne Rice, Agatha Christie, Steven King, Nora Robert, Meg Cabot, Laurell K. Hamilton, atualmente ando as voltas com uma autora Kresley Cole curtindo muito sua narrativa.

 

Nacionais -  André Vianco, Eduardo Spohr e os clássicos Luis Fernando Veríssimo, Caio Fernando Abreu , Clarice Lispector, Paulo Coelho, etc...

 

 
Blog - Que livro você gostaria de ter escrito?

 

Isa - O meu, tenho um progeto de anos que começou a ganhar vida na Antologia Amor em Sangue, a qual participei e lancei um trecho da história de Lya e seu universo vampírico. Aliás Vampiros , sobrenatural, sombrio e horror pessoal são meus temas favoritos.

 

Blog - Como foi participar da antolgia Amor em sangue?

 
Isa - Foi muito interessante e me deu motivação para seguir em frente, o grupo é muito ativo e criativo, todos muito talentosos e está iniciando como escritora pra valer com esse grupo foi maravilhoso. Além claro de ter uma visão mais profissional de como é preparar um conto e lançar em um livro. Estou super empolgada com o resultado e da repercursão, muitos querem continuação dos contos e claro ouvi e li resenhas onde pediam continuação do conto Dama Negra. (Em Breve continuarei em blog e claro nova antologia).

 



Blog - Como é escrever baseada em um universo criado por outro escritor? Como nesse projeto "Depois do Paraíso".

 

Isa - Foi desafiador, estou habituada a criar meus personagens e seus universos ambientados. Esse projeto como sendo o primeiro que participo, devo confessar que foi maravilhoso, pois me possibilitou recordar coisas que adoro como história antiga, Mitologia e misticismo. Curtindo escrever, ver a versão do autor e dá meu ponto de vista. Acredito que consegui captar o que o autor proporcionou ao inciar o projeto. Leiam, vão curtir muito.


 

Isa Miranda - Um pouco sobre mim:

Isa Miranda, nascida em Manaus, criada no Rio de Janeiro (carioca de coração), formada como Professora (Ensino Fundamental), exerci a profissão por 15 anos, atualmente trabalho na empresa Tivit com a Caixa Econômica, tenho 2 filhos e sou separada. Minhas paixões são ler, escrever, cinema, viajar, teatro, cultura japonesa (Culinária, livros, mangás, costmes, cultura, história) e RPG – Role Playing Game - Jogo de Interpretação de Papéis. Autora iniciante com projetos em blogs e clube de livros.

Obra lançada – Antologia Amor em Sangue – Reunião de contos vampirescos de autores nacionais, da editora Casa da Cultura em Setembro/2016. 


Conto: "A Dama Negra" Páginas 45 a 51.
 
 
 
 
 








Supervisão e Criação do Projeto: Ricardo Netto
 

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Trecho do livro: Os senhores das Sombras - O legado de Lilith.

Capítulo Um   Enzo   Ouvia vozes distantes e desconhecidas, sua consciência não permitia entender o que acontecia à sua volta....